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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

SOBRE O AMOR – CONTO DE FERREIRA GULLAR

Sobre o amor 
Ferreira Gullar
March 26, 2013

Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse — eu te amo —, mentindo, o gatilho disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem dúvida uma enorme insegurança de seu inventor.

Insegurança e inexperiência. Com o passar dos anos a ideia foi abandonada, a vida revelou-me sua complexidade, suas nuanças. Aprendi que não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando a pessoa mente, a outra percebe, e se não percebe é porque não quer perceber, isto é: quer acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa expressão mesmo sabendo que é mentira. O mentiroso, nesses casos, não merece punição alguma.

Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical — falo do amor-paixão — e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento: fluido e arrasador. É como o vento, também às vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo.
O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura. Por definição, anti-burguês. O próprio da vida burguesa não é o amor, é o casamento, que é o amor institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento é um contrato: duas pessoas se conhecem, se gostam, se sentem a traídas uma pela outra e decidem viver juntas. Isso poderia ser uma coisa simples, mas não é, pois há que se inserir na ordem social, definir direitos e deveres perante os homens e até perante Deus. Carimbado e abençoado, o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos maledicentes. Por maior que tenha sido a paixão inicial, o impulso que os levou à pretoria ou ao altar (ou a ambos), a simples assinatura do contrato já muda tudo. Com o casamento o amor sai do marginalismo, da atmosfera romântica que o envolvia, para entrar nos trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora é construir um lar, gerar filhos, criá-los, educá-los até que, adultos, abandonem a casa para fazer sua própria vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, não radicalizemos: há exceções — e dessas exceções vive a nossa irrenunciável esperança.

Conheci uma mulher que costumava dizer: não há amor que resista ao tanque de lavar (ou à máquina, mesmo), ao espanador e ao bife com fritas. Ela possivelmente exagerava, mas com razão, porque tinha uns olhos ávidos e brilhantes e um coração ansioso. Ouvia o vento rumorejar nas árvores do parque, à tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta vida, quanta aventura estaria se desenrolando naquele momento nos bares, nos cafés, nos bairros distantes. À sua volta certamente não acontecia nada: as pessoas em suas respectivas casas estavam apenas morando, sofrendo uma vida igual à sua. Essa inquietação bovariana prepara o caminho da aventura, que nem sempre acontece. Mas dificilmente deixa de acontecer. Pode não acontecer a aventura sonhada, o amor louco, o sonho que arrebata e funda o paraíso na terra. Acontece o vulgar adultério – o assim chamado -, que é quase sempre decepcionante, condenado, amargo e que se transforma numa espécie de vingança contra a mediocridade da vida. É como uma droga que se toma para curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. Estou curada, ela então se diz — e volta ao bife com fritas.

Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teus pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.

A barra é pesada. Quem conheceu o delírio dificilmente se habitua à antiga banalidade. Foi Gogol, no Inspetor Geral quem captou a decepção desse despertar. O falso inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe possibilitou uma vida de sonho: homenagens, bajulações, dinheiro e até o amor da mulher e da filha do prefeito. Eis senão quando chega o criado, trazendo-lhe o chapéu e o capote ordinário, signos da sua vida real, e lhe diz que está na hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor está para chegar. Ele se assusta: mas então está tudo acabado? Não era verdade o sonho? E assim é: a mais delirante paixão, terminada, deixa esse sabor de impostura na boca, como se a felicidade não pudesse ser verdade. E no entanto o foi, e tanto que é impossível continuar vivendo agora, sem ela, normalmente. Ou, como diz Chico Buarque: sofrendo normalmente.

Evaporado o fantasma, reaparece em sua banal realidade o guarda-roupa, a cômoda, a camisa usada na cadeira, os chinelos. E tudo impregnado da ausência do sonho, que é agora uma agulha escondida em cada objeto, e te fere, inesperadamente, quando abres a gaveta, o livro. E te fere não porque ali esteja o sonho ainda, mas exatamente porque já não está: esteve. Sais para o trabalho, que é preciso esquecer, afundar no dia-a-dia, na rotina do dia, tolerar o passar das horas, a conversa burra, o cafezinho, as notícias do jornal. Edifícios, ruas, avenidas, lojas, cinema, aeroportos, ônibus, carrocinhas de sorvete: o mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades. E de repente o táxi que te leva por uma rua onde a memória do sonho paira como um perfume. Que fazer? Desviar-se dessas ruas, ocultar os objetos ou, pelo contrário, expor-se a tudo, sofrer tudo de uma vez e habituar­-se? Mais dia menos dia toda a lembrança se apaga e te surpreendes gargalhando, a vida vibrando outra vez, nova, na garganta, sem culpa nem desculpa. E chegas a pensar: quantas manhãs como esta,  perdi burramente! O amor é uma doença como outra qualquer.

E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém meta na cabeça que só existe fulano ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas… Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!…

Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos cúmulos e nimbos. Em paz com a vida. Ou não.


http://contobrasileiro.com.br/sobre-o-amor-conto-de-ferreira-gullar/

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Ferreira Gullar - Sétimo ocupante da cadeira nº 37 da ABL, eleito em 9 de outubro de 2014, na sucessão de Ivan Junqueira, e recebido em 5 de dezembro de 2014, pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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BOM SENSO NA ALITA – Rilvan Santana

Bom senso na ALITA 
Rilvan Santana


René Descartes, racionalista, de pensamento histórico: “cogito, ergo sum” ou,  “dubito, ergo cogito, ergo sum”, que  através do pensamento, justifica o ser, o eu, a existência e, a frase não menos histórica que todo homem jacta-se de possuir “bom senso”.   E foi o bom senso que levou a presidente da Academia de Letras de Itabuna-ALITA, Dra. Sônia Maron, antecipar para esta semana, próximo dia 16 (sexta-feira), às 19 horas primeira convocação e às 20 horas, segunda convocação, a eleição por voto de seus membros fundadores e efetivos, a diretoria da ALITA para o biênio de 2017 e 2018. 

                No dia 07 deste mês, em nota editorial sobre o encerramento das atividades da ALITA e da 2ª. revista “Guriatã”, conclamei aos alitanos no diário on-line “Saber-Literário”, o seguinte:

                “...Aproveito a oportunidade para conclamar aos acadêmicos da diretoria da ALITA, mais ação administrativa, mais integração com a comunidade, mais projetos comunitários, mais ação política, agregar todos os membros sem tendência de grupo, torná-la mais democrática e mais transparente. 
Uma academia não pode e não deve ser, somente, um repositório de reuniões de condestáveis, mas aberta às diversas tendências intelectuais e culturais.  Sua importância se dará à medida que for significativa para comunidade. 
Uma academia de letras de uma cidade, de um estado, de um país, expressa o que existe de melhor intelectualmente e culturalmente numa sociedade e deve ser dirigida por um líder não por um chefe. O líder a diversifica e a agrega, o chefe coloca-a aos interesses dos proeminentes de plantão e dos apaniguados. O rosto de uma academia, deve ser o rosto da comunidade...”

Uma academia de letras moderna, a inspiração dá lugar à transpiração, ao trabalho, não ao ócio ou devaneio, ou, ao chá das 17 horas como na ABL.

A presidente da ALITA, Dra. Sônia Maron, deixará um legado de ineficiência administrativa, que poderá ser justificado, “eufemizado” e compreendido, se fatores decisivos e alheios à sua vontade, a exemplo de falta de saúde ou graves problemas familiares. 

Lembro-me que na reunião de 14 de maio de 2015, para escolha da nova diretoria da ALITA, Dr. Marcos Bandeira, disse não acreditar que a presidente Sônia Maron, desejasse mais um segundo mandato face sua fragilizada saúde, mas foi surpreendido com sua posição contrária, que além de aceitar o segundo mandato, conjeturou com  o escritor Cyro de Mattos, os nomes que comporiam sua chapa para reeleição.

Porém, quem lamenta o que não deu certo, sofre em dobro, não se chora sobre o leite derramado, não se deve olhar pelo retrovisor, o passado ruim deve ser sepultado e enterrado para sempre, importa agora, que se eleja no próximo dia 16, um nome que agregue todos os segmentos intelectuais da cidade com objetivo comum de soerguimento e desenvolvimento da nossa entidade literária itabunense.

Se me fosse dado o privilégio de traçar o perfil do próximo presidente da ALITA, sugeriria um nome leve, benquisto socialmente, não tendencioso, sem sectarismo, que não fosse intolerante, agregador, de ideias avançadas, não conservador, desenvolto, que saiba lidar com o dissenso e a crítica e seus diretores tenham o mesmo ideário. 

Enfim, que a nossa casa das letras e do conhecimento, não seja, somente, casa de pensamento platônico, de sonhos, de metáforas, mas seja, também, uma casa de ações práticas, projetos comunitários, porta-voz dos que não têm voz e de consciência política aristotélica.  

Fraternalmente, Rilvan Batista de Santana. Itabuna, 13 de dezembro de 2016.





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